Os 60 Anos do Curso de Matemática
Bom dia a todos! Muito obrigado à Comissão Organizadora pelo convite. Sinto-me honrado em participar da Comemoração dos 60 anos do Curso de Matemática. Saudações às autoridades aqui presentes. Saúdo o Magnífico Reitor da UFES, professor Eustáquio Vinicius Ribeiro de Castro, o Diretor do Centro de Ciências Exatas, professor Etereldes Gonçalves Junior, o Chefe do Departamento de Matemática, professor Apoenã Passos Passamani, a coordenadora do Curso de Matemática, professora Ana Claudia Locateli e demais pessoas presentes. O Curso de Matemática da UFES foi criado em 1965, pela professora Myrtha Salloker Fayet, gaúcha ferrenha e com garra, catedrática da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras do Espírito Santo – FAFI, que funcionava no centro de Vitória, num prédio que hoje abriga uma escola de artes da Prefeitura. Uma pouco dessa fase pode ser lido em “Formação específica de professores de matemática no Espírito Santo: uma história de 1964 a 2000” anexado ao endereço https://cce.ufes.br/conteudo/nota-de-pesar-0. No final dos anos 60, os estudantes brasileiros reclamavam por mais vagas e mais verbas no ensino superior. O governo federal criou a reforma universitária, modificando o modelo vigente de ensino do sistema europeu baseado em cátedras, passando para o modelo americano que reúne professores em departamentos, e por área de conhecimento. Assim nasceu em 1971, o Departamento de Matemática e Estatística do Centro de Estudos Gerais da UFES (CEG), ao mesmo tempo que nasceram mais 8 departamentos: Física e Química, Letras, Filosofia, História, Geografia, Biologia, Ciências Sociais e Psicologia. Vejam que o Departamento de Matemática e Estatística e o Departamento de Física e Química eram apenas dois, apesar de quatro áreas. A reforma universitária extinguiu o sistema seriado e a noção de turma, que permitia aos alunos frequentarem o curso inteiro com os mesmos colegas. Foi criado o sistema de créditos; os cursos passaram a ser uma reunião de disciplinas; foi criado o Ciclo Básico comum com disciplinas idênticas para cursos de mesma área. Ingressei em 1972 no curso de engenharia, pelo primeiro vestibular unificado da UFES, me lembro ainda meu número de matrícula e minhas notas de entrada. A opção por engenharia elétrica, mecânica ou civil era feita só após o aluno entrar no terceiro ano. No início da reforma universitária, os professores José Merigueti e Nelson Luiz Pioto D’Ávila foram respectivamente chefes do departamento e presidente do curso de matemática. Durante esse período, para gerir os cursos existiram as Comissões Permanentes de Integração Curricular. As chamadas CPICs não eram exatamente um órgão acadêmico, que exige um coordenador, elas tinham um presidente, ora vejam. Essas palavras iniciais são para situar que a gestão do curso de matemática como temos hoje, com um colegiado composto em grande parte por professores do departamento de matemática, só passou a existir em meados dos anos 80. Antes, os docentes eram catedráticos vitalícios e após a reforma os docentes foram deixados na categoria de professores colaboradores, regidos pela CLT, como são os atuais professores substitutos. Em 1980, mais da metade do corpo docente da UFES era composto de professores colaboradores, que não sendo do quadro de magistério, não podiam exercer cargos de chefia; mas para garantir o funcionamento de tudo, exerciam assim mesmo. Durante a década de 80, o Brasil passou por 8 greves de professores universitários reivindicando melhorias. Em 87 houve uma reestruturação da carreira de magistério, começada na greve de 80, a primeira greve de funcionários públicos do Brasil. Foram criadas, as progressões na carreira e os atuais colegiados de curso. Esta pode ser uma das razões porque hoje comemoramos 60 anos, antes as comemorações dos 50, 45 e 20, e estas foram as únicas. Durante esse período, o curso de matemática se confundiu com o Departamento. Nessa fase, o grande mentor do curso e do departamento foi o Professor Standard Silva, carioca, com mestrado em matemática no IMPA, que aqui chegou em 1973 e se apaixonou pelo Espírito Santo. Ao se aposentar no magistério, no início dos anos 2000, Standard passou em concurso público e foi trabalhar no MCT, em Brasília. Bravo Standard! As principais ações dessa época foram: atrair alunos de engenharia para o curso de matemática, a criação do bacharelado em matemática, a formação de uma biblioteca de matemática, a partir de uma lista básica de livros, organizada de um livreto do professor Elon Lages Lima sobre como construir uma biblioteca de matemática. Também incentivava e buscava condições para a participação dos alunos de matemática no Colóquio Brasileiro de Matemática e em cursos de verão. Dos cinco alunos da primeira turma do bacharelado em matemática concluída em 1974, três deles estão aqui hoje e dois estiveram aqui no aniversário do CCE. Além disso, o professor Standard teve uma enorme contribuição na política docente universitária e na ideia da criação do Centro de Ciências Exatas, que foi desmembrado do CEG. Durante esse período havia grande procura dos professores de matemática do estado por aperfeiçoamento. O Departamento realizou diversos Seminários de Ensino de Matemática, convidando professores experientes de outros estados. O DMAT criou um curso de aperfeiçoamento, que foi concluído por professores do próprio departamento, o que facilitou depois sua conclusão do mestrado e a obtenção do doutorado. No início nos anos 80, por desmembramento, foi criado o Departamento de Estatística e surgiu o Curso de Estatística. No final dos anos 80, com a chegada dos computadores pessoais, foi criada dentro do curso de matemática a opção matemática aplicada e computacional. Muitos alunos foram formados com esta ênfase. Um computador vinha com 100 megabites de memória e, junto com uma impressora de agulhas, custava o mesmo que hoje em dia custa uma máquina com 1 terabite. A nossa biblioteca continuava em formação a baixo custo e com muita eficiência. No início dos anos 90, um novo desmembramento do DMAT; foi criado o Departamento de Informática da Ufes, que levou para o Centro Tecnológico o curso de Ciência da Computação aqui idealizado. Uma pena que esse departamento não tenha permanecido no CCE. A constituição de 88 exigiu que as universidades fizessem a interiorização de seus cursos. O Departamento de Matemática reuniu esforços e criou o curso de matemática de São Mateus em 1991. Surgiu a Coordenação Universitária Norte do Espírito Santo (hoje Centro Universitário do Norte do Espírito Santo - CEUNES) que agregou ainda os cursos de pedagogia, biologia, letras-português e educação física. O colegiado da matemática da CEUNES era o mesmo da UFES e os professores se deslocavam daqui para as aulas. De 1980 a 2000, o departamento de matemática tinha uma política baseada em concurso público de provas e títulos para ingresso de professores com ótima formação acadêmica e com potencial para a pesquisa, visando a criação do curso de mestrado em matemática. Nessa época, os doutores em matemática eram escassos e os concursos eram para ingresso de professores assistentes que exigiam apenas o mestrado em matemática. Ingressaram ótimos mestres professores. No final dos anos 90, por iniciativa do DMAT, foi criado o Projeto Habilitar, que permitiu a graduação plena em matemática a 84 professores do estado, em atividade em sala de aula, de uma entrada de 120 candidatos. Em 98, (mais) uma greve universitária, de 100 dias, gerou novas perspectivas. Em 2001 tínhamos apenas 21 professores efetivos e 9 substitutos, por isso e pelo trabalho executado nos dois anos anteriores, 6 vagas de concurso para o DMAT foram conquistadas, de uma chegada de cerca de 50 para a expansão do quadro da UFES. A CDSM foi calculada considerando todas as pautas emitidas pelo número de efetivos de cada departamento. Uma banca de concurso com dois ex-presidentes da Sociedade Brasileira de Matemática proporcionou o ingresso de 6 doutores em matemática com as características desejadas. A partir daí foi criado o mestrado acadêmico de matemática em 2005, um sonho realizado depois de 25 anos. Convém ressaltar que os cursos de graduação das instituições de ensino superior passaram a ser avaliados pelo INEP a partir de 98. O chamado Provão atribuía conceitos de A até E aos cursos em três quesitos: o primeiro era uma prova para os estudantes, o segundo a análise da grade curricular e a qualificação do corpo docente e, por último, a estrutura administrativa. Aí se incluíam as bibliotecas e nós tínhamos uma própria! Foi motivo de orgulho para todos que, durante o Provão, depois transformado em ENADE, o curso de matemática da UFES recebeu os conceitos AAA em todos os 6 anos em que a avaliação foi nesse formato. Somente a UnB e a Unicamp mantiveram o mesmo conceito máximo que obteve o curso de matemática da UFES durante a existência dos Provões. Multiplicando por 6 dá 18 longos AAA...A. Se não encontrarem esses dados no site do INEP, eu os tenho guardado impresso na sala da olimpíada. As olimpíadas de matemática surgiram e se tornaram um instrumento para melhoria da qualidade do ensino e, sob essa visão, o departamento de matemática as percebeu, desde o início. A Olimpíada Capixaba de Matemática, iniciada em 85, tornou-se um programa de extensão da UFES e, em 96, envolveu cerca de 20 mil estudantes capixabas. Representava 20% dos 100 mil estudantes que participavam da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) em todo o Brasil. Uma participação fantástica observada pela Sociedade Brasileira de Matemática na criação da OBMEP, em 2005. Através da olimpíada muitos alunos chegaram para cursar matemática e já são doutores. A partir da internet, oportunidades de aperfeiçoamento à distância surgiram e, em 2002, foi criado o Programa de Aperfeiçoamento de Professores de Matemática do Ensino Médio (PAPMEM) pelo professor Elon Lages Lima, a partir de aulas síncronas do IMPA. Até 2015, essas aulas só podiam ser acessadas nos pontos de presença da rede Rede Nacional de Pesquisa (RNP) instalados nas universidades federais. Na hora da transmissão da aula, todo o sinal de internet da RNP para a UFES parava. O DMAT recebeu todas as imagens e tutorou todos os cursos. O PAPMEM era dirigido preferencialmente a professores de matemática em sala de aula, e em segundo lugar para alunos finalistas e por último aos demais alunos. Havia distribuição gratuita de livros, lanches, um auxílio financeiro, aulas de exercício à tarde e certificados para quem prestasse a avaliação no final da semana de aulas. Agora, com a facilidade e alcance da internet, o PAPMEM está aberto a todo o público em geral e a avaliação presencial ainda é aplicada aqui até hoje. Como prosseguimento do PAPMEM, em 2011 surgiu o Curso de Mestrado Profissional em Matemática, da SBM, semipresencial, ao qual o departamento imediatamente aderiu e que até hoje permanece avaliado pelo MEC com nota 5, a máxima. Já são mais de 150 professores mestres profissionais formados, do Espírito Santo e cidades limítrofes. Para dar um exemplo do progresso do curso de matemática e do departamento, durante a minha graduação, o corpo docente contava com nenhum doutor e um único mestre em matemática. Em 2025, o DMAT possui mais de 30 doutores e doutoras em matemática. Desde a minha entrada na UFES em 1972, no primeiro vestibular unificado, em que me classifiquei em primeiro lugar geral, até a conclusão do meu doutorado em matemática em 1991, mesmo assim, eu levei 19 anos. Hoje, já temos professor no departamento que fez esse percurso em 9 anos, menos da metade do meu tempo. O que ocorreu no curso de matemática e no departamento nos últimos 20 anos ainda não é história para ser contada, porque pode ser lembrada de corpo presente. Para encerrar, acho que o Departamento de Matemática e o Curso de Matemática precisam pensar o futuro. Em 1978, a China reestruturou o currículo de matemática adaptando a escola secundária para a entrada no século XXI, e a China aí está. Todos podem ler um artigo descrevendo essa proposta na Revista do Professor de Matemática Vol. 23, de 1995 (https://rpm.org.br/cdrpm/23/4.htm). Essa mudança foi elaborada pelo professor Wu-Yi Hsiang da Universidade da Califórnia, em Berkeley, um pesquisador da área de Geometria Diferencial. De acordo com a União Matemática Internacional (IMU), o Brasil já faz parte do grupo 5, dos melhores países desenvolvedores de matemática no mundo, isso em pesquisa. O que é preciso é que a matemática de qualidade chegue às crianças. Faço votos que, daqui para frente, o DMAT continue perseguindo um objetivo comum, baseado no Princípio do Equilíbrio de Nash: quando se trabalha em conjunto, o melhor é o que é bom para si e para o grupo. Um objetivo comum fundamentado no ensino de qualidade da matéria matemática idealizado pela Professora Myrtha no início e continuado pelo Standard. Além do desenvolvimento da pesquisa em matemática, um ensino e uma extensão capazes de formar bons professores para diminuir a dificuldade na matemática elementar, contribuindo para a melhoria do aprendizado dos alunos nas escolas do ensino básico, objetivo tão importante para a sociedade. Como disse o professor Manfredo Perdigão do Carmo, geômetra alagoano como o Elon, e meu precioso orientador de doutorado, no prefácio do seu livro de trigonometria dedicado à OBMEP: “a matemática é um método poderoso de entender o que se passa ao seu redor e, mais importante ainda, um hábito de pensar com clareza e segurança”. Muito obrigado, parabéns a todos e feliz aniversário de 60 anos do curso!
Prof.
Florêncio Guimarães, Departamento de Matemática da UFES.
